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Sunday, February 10, 2008

O Queixobiqueira

«Nem em Las Hurdes se encontram os anões que diminuem por aqui a olhos vistos.
Aqui, se tiramos um átimo os olhos do anão,
ao pô-los novamente nele
já temos que ir mais abaixo: o anão está queixobiqueira

Embora queixobiqueira o anão daqui tenta agigantar-se
relativamente ao anão que está mais ao pé.
Para tanto, o queixobiqueira trepa à árvore genealógica
e põe-se lá de cima a atirar crânios de antepassados
sobre quem passa, se demora ou diminui.
E isto é só um exemplo.
O queixobiqueira usa de varíadissimos recursos nas suas tentativas de agigantamento.

Um deles:
Levanta o mento da biqueira, cospe nela, baixa o mento
e enquanto parece dizer que não com a cabeça,
puxa com a barba dura o brilho à biqueira.
Considera-se, então, que esse queixobiqueira,
relativamente ao
ao queixobiqueira que, na circunstância,
não cuspiu para brilhar na biqueira
se agigantou.
Etc.Etc.

Se você, o de talhe normal, é suficientemente hábil
para por um queixobiqueira ao seu serviço,
nunca mais terá de abaixar-se
para apanhar as miúdas coisas
que uma pessoa deixa cair.
Mas não esqueça a regra: passear com alguma frequência o queixobiqueira
empoleirado no seu ombro.
Os olhos dele brilharão mais que a biqueira.»

Thursday, December 13, 2007

A central das Frases

"...já te disse que são os do primeiro...
...e afinal não pudémos telefonar...
...ai nem queira saber o engenheiro...
...se me dão licença eu vou contar...
...penses nisso era só o que faltava...
...não as outras duas é que são as tais...
...mas o senhor presidente autorizava...
...na avenida centenas de pardais...
...de facto muito inteligente...
...ó filha por aqui fazes favor...
...que veio ontem para falar com a gente...
...é mesmo lá ao fim do corredor..."

Thursday, June 07, 2007

A Meu Favor

«A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer.

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça

A meu favor tenho uma rua e transe
Um alto incêndio em nome de nós todos.»
Alexandre O´neill

Saturday, March 03, 2007

A vazia sandália de S.Francisco

«A gratidão da macieira e a amnésia do gato
nunca pautaram o curso dos meus dias.
“Fiquem onde estão!”,
foi a minha ordem para a macieira e para o gato,
ainda bem exteriores ao meu fraco por eles.

Salvei-os (e salvei-me!) de uma fábula
cuja moral necessariamente devia ser eu, o parlante
amigo de macieiras e conhecido de gatos.

Dá um certo desconforto malbaratar assim amigos
em dois reinos da natureza.
Mas também dá liberdade.

Há uma gente que desponta do outro lado do vale.
Está a correr para cá.
São os meus semelhantes.
Com eles vou desentender-me (mais que certo!),
mas a ideia que deles faço
é ainda um laço.

Repousem em paz as macieiras e os gatos.»