Terram
A minha terra é o lugar onde aterram
E atracam verbos, vindos de todo o Lugar
Quando eu morrer, tirem-me dela,
Doem-me ao mar…
… Que eu vou com ele por onde ele for.
Maria Amaro
"Sábias agudezas... refinamentos...- não! Nada disso encontrarás aqui.Um poema não é para te distraíres como com essas imagens mutantes de caleidoscópios. Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe. Um poema não é também quando paras no fim, porque um verdadeiro poema continua sempre...Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras." Projecto de Prefácio, Mário Quintana
A minha terra é o lugar onde aterram
E atracam verbos, vindos de todo o Lugar
Quando eu morrer, tirem-me dela,
Doem-me ao mar…
… Que eu vou com ele por onde ele for.
Maria Amaro
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Mariana
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Wednesday, May 25, 2005
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A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um faso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.
Álvaro de Campos, 1929
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Mariana
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Monday, May 23, 2005
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